Opinião: sem design, a economia circular não fecha a conta
Por Yuri Tomina*
A economia circular no Brasil está entrando em uma nova fase. Com o avanço das metas obrigatórias de recuperação de embalagens plásticas e a definição de critérios de reciclabilidade, o tema deixa de ser tratado apenas como compromisso voluntário. O assunto passou a orientar decisões concretas de investimento, inovação tecnológica e desenvolvimento de produtos.
Novo marco da logística reversa
Nesse contexto, o Decreto nº 12.688/2025 representa um marco importante. Ao estabelecer metas progressivas de recuperação de embalagens e de incorporação de conteúdo reciclado pós-consumo, o decreto cria maior previsibilidade regulatória. Isso permite que as empresas planejem com mais segurança investimentos em reciclagem, infraestrutura e desenvolvimento de embalagens com resina reciclada pós-consumo (PCR).
Em 2024, o Brasil reciclou cerca de 21% do plástico pós-consumo e 24,4% das embalagens colocadas no mercado, segundo levantamento setorial anual da consultoria MaxiQuim. O estudo foi realizado para o Movimento Plástico Transforma. Mas os números ainda estão distantes do potencial produtivo existente.
Desafios da capacidade industrial
Já a capacidade instalada da indústria de reciclagem supera 2,4 milhões de toneladas por ano, o que revela um espaço significativo para a expansão do volume processado. Agora, cada vez mais, o debate começará no início da cadeia: no design dos produtos. Decisões de design influenciam diretamente a eficiência da recuperação, a qualidade do material reciclado e a viabilidade econômica da reciclagem.
Design focado em reciclabilidade
Embalagens projetadas para a reciclabilidade - como as soluções monomateriais ou a redução de combinações contaminantes - facilitam a triagem. Além disso, aumentam a qualidade do material recuperado e ampliam o potencial de uso do PCR em novas aplicações. Tais medidas também potencializam o impacto social para catadores e cooperativas de reciclagem. Por isso, o redesenho de embalagens tende a se tornar uma das principais agendas industriais nos próximos anos.
Inovação e circularidade
Iniciativas como o Cazoolo, lab de design circular de embalagens da Braskem, surgem justamente para apoiar empresas nesse processo. O foco é a revisão e desenvolvimento de embalagens mais alinhadas aos princípios de reciclabilidade e circularidade. Diante desse cenário, o avanço da economia circular exige uma visão sistêmica. Nela, o design para a reciclabilidade deve ser decisivo na hora de ampliar a oferta de resíduos de qualidade e garantir a competitividade do PCR.
Impacto econômico e social
Quando embalagens não consideram sua reciclagem futura, reduz-se a disponibilidade de materiais recicláveis de alta performance. A articulação com cooperativas de catadores, aliada às iniciativas de capacitação, é condição essencial para que as obrigações regulatórias se traduzam em resultados.
Fortalecimento da cadeia de resíduos
Ao mesmo tempo, o avanço dessas metas exige atenção a um ponto estrutural: o fortalecimento da cadeia nacional de resíduos e reciclagem. À medida que a demanda por conteúdo reciclado cresce, torna-se relevante ampliar a capacidade de coleta, a separação e o processamento dos materiais gerados no país. O desenvolvimento dessa estrutura é fundamental para garantir escala e competitividade ao mercado de materiais reciclados. Além disso, contribui para que os resíduos produzidos no Brasil retornem ao ciclo produtivo de forma mais eficiente. A economia circular entra, assim, em uma etapa mais madura do desenvolvimento industrial. Conectar a política de economia circular com a política industrial será decisivo para que o Brasil avance na construção de uma cadeia de reciclagem mais robusta e inovadora.
*Yuri Tomina está há mais de 20 anos na Braskem e, atualmente, é Líder de Economia Circular na América do Sul
