Edição 1 - Dezembro

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Resolvendo a questão do uso de terra na produção de plásticos

Será um dia quente em São Paulo. De manhã cedo, uma fila de corredores se estende ao longo do entorno do Parque do Ibirapuera, enquanto a avenida faz a curva em volta de um pequeno lago. Algumas dessas pessoas podem não saber, mas há uma revolução de pegada de carbono em curso bem debaixo da sola de seus pés.

Esses corredores podem estar usando calçados que não são apenas mais leves e mais confortáveis, mas também podem ser carbono neutro. O fato é que algumas das marcas esportivas líderes de mercado despertaram para o poder do sol e o milagre da fotossíntese - elas estão cada vez mais migrando para materiais produzidos a partir de fontes vegetais.

O milagre diário acontece a aproximadamente 500 quilômetros a oeste de São Paulo, nos arredores de Presidente Prudente. À medida que o sol se levanta, centenas de quilômetros de áreas rurais se estendem pelo horizonte, à espera de serem cultivadas, colhidas e processadas. Esse é o país da cana-de-açúcar e o epicentro de uma indústria que se tornou parte essencial da economia brasileira e sua luta contra as mudanças climáticas.

Primeiramente, alguns fatos interessantes sobre o Brasil. Trata-se de um dos maiores países do mundo, com uma área total de 851 milhões de hectares, maior do que a União Europeia toda e maior do que o território dos Estados Unidos (excluindo Alasca e Havaí). O país possui 548 milhões de hectares (64% de seu território) de áreas protegidas, reservando 301 milhões de hectares para a atividade econômica, dos quais 52,6% são usados para criação de gado, 18,8% permanecem ociosos e 28,5% são usados para a agricultura.

O Brasil cultiva cana-de-açúcar desde o século XVI e agora é líder mundial em tecnologias inovadoras de plantio, manejo e colheita da planta. A cana-de-açúcar ocupa por volta de 3% da terra arável e é responsável pela produção de 665 milhões de toneladas de açúcar e 34 bilhões de litros de etanol. O Brasil produz 25% do açúcar e etanol do mundo em um setor que fatura cerca de US$ 45 bilhões a cada ano, empregando mais de um milhão de pessoas.

Embora uma parte significativa do açúcar vá parar em nossos pratos ou em refrigerantes, esse bioetanol está se tornando um recurso cada vez mais importante para a indústria de combustíveis e química. A cana-de-açúcar fornece cerca de 18% da matriz energética brasileira. E, nos últimos anos ela está sendo inserida no setor de plásticos também. Em 2010, a Braskem lançou o seu polietileno I'm greenT bio-based. Recentemente, nós desenvolvemos o EVA I'm greenT bio-based, uma espuma sustentável substituta da borracha que, é isso mesmo o que pensou, é destinada para a indústria de calçados.

Voltando então aos corredores, agora indo para suas casas depois de um bom exercício. Fico me perguntando se eles refletem sobre o real significado de se fazer a transição de um plástico de origem fóssil para um de origem vegetal. Eu acredito que muitos deles confiam na escolha positiva que fizeram, como investimento em uma inovação benéfica ao clima. Mas, na verdade, essa talvez seja uma questão mais complexa do que muitos imaginam por causa de um conceito técnico chamado "MUTi", ou Mudança de Uso de Terra indireta. No início dos anos 2010, pesquisadores começaram a focar nas consequências não intencionais do aumento do uso de terras cultivadas para a produção de biocombustíveis. E o que eles descobriram, acendeu um debate sobre se o uso de terras aráveis deveria realmente ser subsidiado.

No cerne dessa questão está o fato de que, à medida que os países começaram a oferecer subsídios para a produção de biocombustíveis, houve o aumento ou garantia de preços para algumas safras, o que levou agricultores a limpar terras ou substituir determinadas safras de alimentos para garantir melhor fonte de renda. O mais preocupante foram os casos encontrados pelos pesquisadores em que terras naturais, como florestas e pastagens, foram substituídas, levando a diversos impactos: perda de biodiversidade, aumento na emissão de gases do efeito estufa, eutrofização e deterioração do estoque de carbono do solo.

Entretanto, de acordo com a opinião dos especialistas, embora a MUTi seja um fator importante, e os critérios de sustentabilidade sejam essenciais para avaliar o impacto e monitorar o desenvolvimento desses materiais, nos últimos 10 anos foi produzido conhecimento suficiente sobre a questão a ponto de ela se tornar mais fácil de ser resolvida. Embora não seja fácil determinar o que causa a MUTi e como diferenciá-la da Mudança do Uso de Terra direta (MUTd), os formuladores de políticas estabeleceram diretrizes (e certificadoras aplicaram regras) para administrar o problema. Por exemplo, a União Europeia prevê que qualquer expansão ou maior demanda por biomassa seja suprida por terras já utilizadas para seu cultivo. No caso da cana-de-açúcar no Brasil, tal expansão é suprida principalmente por áreas degradadas de pasto, como resultado das regras impostas pelo próprio setor e reforçadas pela legislação brasileira. A Braskem também colocou em prática mais uma terceira camada de proteção ao desenvolver, juntamente com a Proforest, uma Plataforma de Fornecimento de Etanol Sustentável com requisitos relativos não apenas ao uso da terra, mas também ao bem-estar dos trabalhadores, às melhores práticas agrícolas como o uso reduzido de fertilizantes e pesticidas, aos sistemas de gestão ambiental e ao relacionamento com comunidades locais. Nossos fornecedores são auditados no mínimo a cada dois anos por uma terceira parte independente, que garante a aderência a essa plataforma.

A avaliação do setor sobre as áreas potenciais para expansão da produção mostra que as terras estão disponíveis para abastecer a produção de 205 bilhões de litros de etanol para exportação em 2025, sem entrar em biomas sensíveis, como a Amazônia, o Pantanal e a Mata Atlântica. Um estudo recente considerou o estabelecimento de reservas ambientais em 20% das áreas plantadas, bem como as áreas de florestas, reservas indígenas, parques, etc., não utilizadas para a expansão da produção da cana-de-açúcar. Mais um aspecto a ser mencionado é a característica do cultivo da cana-de-açúcar de propiciar a recuperação do solo em comparação a outras safras.

E a questão da concorrência com os alimentos é atenuada pelo fato de que as usinas de cana-de-açúcar brasileiras produzem tanto o açúcar quanto o bioetanol. Nas usinas modernas, a primeira prensa extrai o sumo de açúcar que vai para a produção de açúcar, e as prensas seguintes com água quente extraem os açúcares residuais que misturados ao melaço vão para os tanques de fermentação, nos quais é produzido um tipo de vinho. Na destilaria onde o etanol é produzido, é gerada uma grande quantidade de vinhaça. Esse resíduo rico em nutrientes é aplicado diretamente no campo como fonte de água e nutrientes e usado na produção de biogás e composto. As sobras de biomassa das prensas são usadas como biocombustível em usina elétrica que fornece todo o calor e a eletricidade que a usina precisa, sendo o excesso transferido para a rede elétrica.

O consumo de etanol para a produção de 200 mil toneladas por ano de polietileno e EVA I'm greenT bio-based representa aproximadamente 1,8% da produção total de etanol, ou 0,02% das terras aráveis do Brasil. O uso de terras para a produção de químicos a partir de fontes renováveis, mesmo em um cenário muito otimista, deve continuar representando uma pequena porcentagem do total das terras disponíveis. Para fins de comparação, o consumo mundial de 100 milhões de toneladas de polietileno exigiria cerca de 35 milhões de hectares; a projeção de áreas disponíveis no Brasil é de 176 milhões de hectares.

Além de todos esses argumentos, no estado de São Paulo, onde 60% da cana-de-açúcar do país é plantada, a rotação das safras com leguminosas é uma prática comum que ajuda a fixar nitrogênio no solo. Portanto, 15% dos 20% das áreas de produção de cana-de-açúcar são também usadas para o cultivo de soja, feijões e amendoim, abastecendo o mercado alimentício.

Tudo isso significa que os corredores de São Paulo, e do mundo todo, agora têm acesso a mais opções de tênis sustentáveis. Seja pelo reaproveitamento de plásticos retirados dos oceanos ou pela produção de EVA a partir da cana-de-açúcar, cada vez mais empresas estão oferecendo produtos de impacto ambiental reduzido ou negativo.

A transição para alternativas não-fósseis e renováveis deve ser conduzida com cuidado, mas o uso da terra para safras destinadas à produção de químicos e plásticos pode ser uma forma sustentável de diminuir as emissões e acabar com a nossa dependência de recursos finitos.