Inventário mantém vivo patrimônio imaterial de bairros de Maceió

Acervo disponível em plataforma do Iphan reúne dados sobre fazedores e pontos de cultura das áreas desocupadas em Bebedouro, Mutange, Bom Parto, Pinheiro e Farol

Maceió, 08 de outubro de 2026 - A memória cultural das comunidades realocadas dos bairros do Bebedouro, Mutange, Pinheiro, Bom Parto e Farol está preservada no Inventário Participativo do Patrimônio Cultural Imaterial (IPCI). Lançado oficialmente nesta quarta-feira (7), no Museu Théo Brandão, Centro de Maceió, o acervo reúne documentos, registros fotográficos e audiovisuais sobre as manifestações tradicionais das áreas desocupadas e pode ser acessado gratuitamente na plataforma digital do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC), mantida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Para acessar, clique aqui.

O IPCI é uma das entregas do Plano de Ações Sociourbanísticas (PAS), estruturado no âmbito do Termo de Acordo Socioambiental firmado entre a Braskem e autoridades públicas. Com 332 fazedores de cultura e 75 referências culturais mapeados, o inventário foi elaborado sob execução técnica da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), com suporte da Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa (Fundepes) e supervisão do Iphan, em alinhamento com a Política Nacional de Salvaguarda.

"Essa parceria entre Braskem, Ufal e Fundepes se deu no sentido de resgatar a cultura, e agora nós apresentamos o que nunca havia sido registrado. O inventário abre uma porta fundamental para o registro de outras manifestações culturais que existem em Alagoas e nunca tiveram esse olhar especial", avalia o reitor da UFAL, professor Josealdo Tonholo.

Segundo o coordenador de Ações Sociais da Braskem, Alfredo Zanon, a parceria chancela o trabalho de elaboração independente do IPCI. "A UFAL é uma instituição que tem pesquisadores altamente qualificados, e a construção do inventário, em parceria com agentes culturais que são ex-moradores das regiões desocupadas ou que tinham relação com as manifestações culturais destes locais, é um importante requisito para o reconhecimento da comunidade cultural", afirma.

Inventário passo a passo

O IPCI foi construído por uma equipe multidisciplinar formada por arquitetos, antropólogos, historiadores, geógrafos e cientistas sociais, com participação da comunidade. Eles identificaram e documentaram as referências culturais imateriais associadas à memória cotidiana dos bairros, seus saberes e práticas, e analisaram os impactos na produção e reprodução desses bens culturais após o processo de desocupação.

Além do levantamento bibliográfico e documental, uma pesquisa de campo ocorreu no período de maio de 2024 a setembro de 2025. O ponto de partida foi a identificação das pessoas que mantinham as práticas culturais vivas nos bairros até o ano de 2018, marco da subsidência.

A formação do grupo de agentes culturais de pesquisa priorizou ex-moradores das áreas desocupadas, que foram capacitados pelo Iphan e receberam apoio técnico da UFAL. Por meio de instrumentos como formulários censitários, entrevistas qualitativas com fazedores de cultura e cartografia social, foram inventariados 413 bens culturais, entre lugares de referência, formas de expressão, celebrações, ofícios e modos de fazer, edificações, objetos e mobilizadores culturais locais.

O IPCI também mapeou 453 lugares de referência, que inclui bairros como Flexais, Chã de Bebedouro e Chã da Jaqueira.

Luiz Antônio dos Santos Silva, o Mestre Meinha, transferiu a Associação Cultural Capoeira Tradição do Farol para o Barro Duro. "Minha casa sempre recebeu muitos estudantes, nós fazíamos estudos sobre a ancestralidade da capoeira, e hoje damos continuidade a esse trabalho em outro bairro, mas é muito importante resgatar nossa história", resume.

Integrante da equipe de pesquisadores do IPCI, o historiador Clair Júnior ressalta que a participação comunitária foi o grande diferencial do projeto. "Prezamos por isso desde o início, fizemos uma seleção e convidamos fazedores de cultura e ex-moradores dos bairros para participar junto com a gente da construção do conhecimento - o que agregou muito valor", comenta.

Como resultado da pesquisa, o IPCI produziu seis cadernos técnicos e um conjunto de 57 proposições de salvaguarda, incluindo diretrizes e recomendações específicas. Entre as medidas sugeridas estão a criação de um Centro de Referência e Memória, o reconhecimento de mestres e mestras por meio do Registro do Patrimônio Vivo e o reconhecimento oficial de bens como a Festa de Santo Antônio de Pádua e o Guerreiro Alagoano como patrimônios culturais imateriais do município de Maceió e do Brasil, respectivamente.

Sobre o PAS

Previsto no Termo de Acordo Socioambiental firmado pelo Ministério Público Federal (MPF) e Braskem, com a participação do Ministério Público do Estado de Alagoas (MPAL) e adesão do Município de Maceió, o Plano de Ações Sociourbanísticas reúne iniciativas como a construção ou reforma de creches, mercados, praças e unidades de saúde, medidas nas áreas cultural, social, econômica e urbanística. Parte das ações é executada pela Braskem; outra, pelo Município. O orçamento atualizado, custeado pela companhia, é de cerca de R$ 260 milhões.

 

 

 

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